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Reuno aqui, para comodidade de leitura, algumas entradas já publicadas sobre o princípio da indução matemática. 

§1. Por este princípio, a demonstração da veracidade de uma determinada proposição matemática p\left( n\right) para todos os inteiros n\geq n_{0}, comporta dois passos:

(1) Verifica-se a sua validade para um dado valor inteiro n_{0} (normalmente, 0 ou 1) da variável de indução n.

(2) Assume-se que é válida para o inteiro n e demonstra-se que é também válida para n+1, isto é, que p\left( n\right)\implies p\left( n+1\right) .

\bigskip

Vamos demonstrar de seguida o Teorema Binomial por este princípio.

Teorema: Para todo o valor de n natural, tem-se

\left( 1+x\right) ^{n}=\displaystyle\sum_{k=0}^{n}\dbinom{n}{k}x^{k}

qualquer que seja o valor real de x.

\bigskip

Demonstração:

O teorema verifica-se para n=0: \displaystyle\sum_{k=0}^{0}\dbinom{0}{k}x^{k}=\dbinom{0}{0}x^{0}=1 e \left( 1+x\right) ^{0}=1, logo \left( 1+x\right) ^{0}=\displaystyle\sum_{k=0}^{0}\dbinom{0}{k}x^{k}. Admitimos agora que o teorema é válido para n, isto é, que \left( 1+x\right)^{n}=\displaystyle\sum_{k=0}^{n}\dbinom{n}{k}x^{k} e demonstremos que o é igualmente para n+1. Como \left( 1+x\right) ^{n+1}=\left( 1+x\right) \left(1+x\right) ^{n}, vem

\left( 1+x\right) ^{n+1}=\left( 1+x\right) \displaystyle\sum_{k=0}^{n}\dbinom{n}{k}x^{k}=\displaystyle\sum_{k=0}^{n}\dbinom{n}{k}x^{k}+\dbinom{n}{k}x^{k+1}.

Manipulamos o segundo membro (lado direito) até obter \displaystyle\sum_{k=0}^{n+1}\dbinom{n+1}{k}x^{k}. De facto,

\displaystyle\sum_{k=0}^{n}\dbinom{n}{k}x^{k}+\dbinom{n}{k}x^{k+1}=\displaystyle\sum_{k=0}^{n}\dbinom{n}{k}x^{k}+\displaystyle\sum_{k=1}^{n+1}\dbinom{n}{k-1}x^{k}=\dbinom{n}{0}x^{0}+\left( \displaystyle\sum_{k=1}^{n}\dbinom{n}{k}x^{k}+\dbinom{n}{k-1}x^{k}\right) +\dbinom{n}{n}x^{n+1}=\dbinom{n+1}{0}x^{0}+\left( \displaystyle\sum_{k=1}^{n}\dbinom{n+1}{k}x^{k}\right) +\dbinom{n+1}{n+1}x^{n+1}

pela identidade de Pascal e porque

\dbinom{n+1}{0}=\dbinom{n}{0}=\dbinom{n+1}{n+1}=\dbinom{n}{n}=1.

Mas, como

\dbinom{n+1}{0}x^{0}+\left( \displaystyle\sum_{k=1}^{n}\dbinom{n+1}{k}x^{k}\right) +\dbinom{n+1}{n+1}x^{n+1}=\displaystyle\sum_{k=0}^{n+1}\dbinom{n+1}{k}x^{k}

provámos, como pretendíamos, que \left( 1+x\right)^{n+1}=\displaystyle\sum_{k=0}^{n+1}\dbinom{n+1}{k}x^{k}, e assim acabámos a demonstração. \qquad \blacksquare

\bigskip

A partir do desenvolvimento de \left( 1+x\right) ^{n} deduz-se imediatamente o de \left( x+y\right) ^{n}.

\bigskip

Corolário: Quaisquer que sejam os reais x e y e o natural n é válida a fórmula

\left( x+y\right) ^{n}=\displaystyle \sum_{k=0}^{n}\dbinom{n}{k}x^{k}y^{n-k}.

\bigskip
Demonstração: Admitamos que y\neq 0:

\left( x+y\right) ^{n}=y^{n}\left( 1+\frac{x}{y}\right)^{n}=y^{n}\displaystyle\sum_{k=0}^{n}\dbinom{n}{k}\left( \frac{x}{y}\right)^{k}=\displaystyle\sum_{k=0}^{n}\dbinom{n}{k}x^{k}y^{n-k}.

Como

\displaystyle\sum_{k=0}^{n}\dbinom{n}{k}x^{k}y^{n-k}=\displaystyle\sum_{k=0}^{n-1}\dbinom{n}{k}x^{k}y^{n-k}+\dbinom{n}{n}x^{n}y^{0},

para y=0, tem-se

\left( x+y\right)^{n}=x^{n}

e

\displaystyle\sum_{k=0}^{n}\dbinom{n}{k}x^{k}y^{n-k}=x^n=\left( x+y\right) ^{n}

ou seja a fórmula ainda é válida \qquad \blacksquare .

 

§2. O Princípio de indução matemática é o seguinte axioma de Peano:

Se o conjunto A, contido em N, for tal que 1 pertence a A e n+1 pertence igualmente a A sempre que n seja elemento de A, então A = N. [N aqui é o conjunto dos naturais 1, 2, 3, ... ].

Uma propriedade P diz-se hereditária quando, sendo verdadeira para o inteiro n, é também verdadeira para o sucessor de n (n+1).

Assim, o Princípio de Indução equivale a afirmar que uma dada proposição, verdadeira para n=1 e hereditária, implica que seja verdadeira para todos os naturais 1, 2, 3, … .

Por isso, a aplicação deste método comporta as duas etapas (ou passos) conhecidos

  1. Demonstração de que uma dada proposição é válida para n=1. (Caso Base).

  2. Demonstração de que a proposição é hereditária. (Etapa de Indução).

Este princípio nada ou quase nada tem a ver com o método de indução próprio das ciências naturais, que se caracteriza por se estabelecer uma lei geral observando a repetição do mesmo fenómeno em inúmeros casos particulares.

§3. Nem todas as provas por indução têm o mesmo grau de dificuldade. Enquanto a do 1º. exemplo é extremamente simples e natural, a do 2º. obtive-a após tentativas, recorrendo a uma identidade algébrica auxiliar — a ser usada no passo de indução — cuja demonstração me pareceu mais simples do que a identidade inicialmente apresentada, que pode ser deduzida a partir da regra de Ruffini de divisão de um polinómio em x, de grau n, por x-\alpha .

Exemplo 1: prove por indução matemática

\displaystyle\sum_{k=1}^{n}\dfrac{1}{2^{k}}=1-\dfrac{1}{2^{n}}

Para n=1 a igualdade verifica-se:

\dfrac{1}{2}=1-\dfrac{1}{2}

Admite-se que se verifica para n

\displaystyle\sum_{k=1}^{n}\dfrac{1}{2^{k}}=1-\dfrac{1}{2^{n}}

e prova-se que nesse caso também se verifica para n+1, ou seja, devemos chegar a

\displaystyle\sum_{k=1}^{n+1}\dfrac{1}{2^{k}}=1-\dfrac{1}{2^{n+1}}

Vejamos: se

\displaystyle\sum_{k=1}^{n}\dfrac{1}{2^{k}}=1-\dfrac{1}{2^{n}}

então, somando \dfrac{1}{2^{n+1}} a ambos os membros da igualdade e simplificando o segundo membro, deduzimos sucessivamente

\left( \displaystyle\sum_{k=1}^{n}\dfrac{1}{2^{k}}\right) +\dfrac{1}{2^{n+1}} =1-\dfrac{1}{2^{n}}+\dfrac{1}{2^{n+1}}=1-\left( \dfrac{1}{2^{n}}-\dfrac{1}{2^{n+1}}\right) =1-\dfrac{1}{2^{n+1}}

Ora, como

\displaystyle\sum_{k=1}^{n+1}\dfrac{1}{2^{k}}=\left( \sum_{k=1}^{n}\dfrac{1}{2^{k}}\right) +\dfrac{1}{2^{n+1}}

provámos deste modo que a igualdade se verifica para qualquer inteiro n\geq 1.

Exemplo 2: se n for um inteiro positivo, prove

a^{n}-b^{n}=\left( a-b\right) \displaystyle\sum_{k=0}^{n-1}a^{k}b^{n-1-k}

Para n=1, temos a^{1}-b^{1}=\left( a-b\right) \displaystyle\sum_{k=0}^{1-1}a^{k}b^{1-1-k}=a-b.

Antes de aplicar a hipótese de indução, a ideia fundamental consiste em mostrar a validade da identidade auxiliar

\left( a^{n}-b^{n}\right) P(n+1)=\left( a^{n+1}-b^{n+1}\right) P(n)\qquad (\ast )

em que

P(n)=\displaystyle\sum_{k=0}^{n-1}a^{k}b^{n-1-k}.

De facto

\left( a^{n}-b^{n}\right) P(n+1)=\left( a^{n}-b^{n}\right) \displaystyle\sum_{k=0}^{n}a^{k}b^{n-k}

=\left( \displaystyle\sum_{k=0}^{n}a^{n+k}b^{n-k}\right) -\left( \displaystyle\sum_{k=0}^{n}a^{k}b^{2n-k}\right)

e

\left( a^{n+1}-b^{n+1}\right) P(n)=\left( a^{n+1}-b^{n+1}\right) \displaystyle\sum_{k=0}^{n-1}a^{k}b^{n-1-k}

=\left( \displaystyle\sum_{k=0}^{n-1}a^{n+k+1}b^{n-1-k}\right) -\left( \displaystyle\sum_{k=0}^{n-1}a^{k}b^{2n-k}\right)

Mas

\displaystyle\sum_{k=0}^{n}a^{n+k}b^{n-k}=a^{n}b^{n}+\displaystyle\sum_{k=0}^{n-1}a^{n+k+1}b^{n-1-k}

e

\displaystyle\sum_{k=0}^{n}a^{k}b^{2n-k}=a^{n}b^{n}+\displaystyle\sum_{k=0}^{n-1}a^{k}b^{2n-k}

Subtraindo membro a membro, vem

\left( \displaystyle\sum_{k=0}^{n}a^{n+k}b^{n-k}\right) -\left( \displaystyle\sum_{k=0}^{n}a^{k}b^{2n-k}\right)

=\left( \displaystyle\sum_{k=0}^{n-1}a^{n+k+1}b^{n-1-k}\right) -\left( \displaystyle\sum_{k=0}^{n-1}a^{k}b^{2n-k}\right)

pelo que fica provada a identidade (\ast ) da qual se tira

a^{n+1}-b^{n+1}=\dfrac{a^{n}-b^{n}}{P(n)}P(n+1)

Assim, admitindo que

a^{n}-b^{n}=\left( a-b\right) P(n)

resulta que

a^{n+1}-b^{n+1}=\dfrac{\left( a-b\right) P(n)}{P(n)}P(n+1)

=\left( a-b\right) P(n+1)

=\left( a-b\right) \displaystyle\sum_{k=0}^{n}a^{k}b^{n-k}

como se queria mostrar.

§ 4. Exercício 1: prove que existe apenas um número natural que verifica a relação

^{n\!}C_{n-2}=2^{n-2}-1

Sugestão: utilize o princípio de indução para provar que a relação não é satisfeita por nenhum natural superior a seis.

Esta ideia é devida a Vishal Lama (neste comentário em inglês).

§ 5. Exercício 2: podemos demonstrar que

\Gamma \left( n+\dfrac{1}{2}\right) =\dfrac{1\cdot 3\cdot 5\cdots \left( 2n-1\right) }{2^{n}}\sqrt{\pi }\qquad n=1,2,3,\ldots .

De facto substituindo em

\Gamma \left( n+\dfrac{1}{2}\right) =\dfrac{1\cdot 3\cdot 5\cdots \left( 2n-1\right) }{2^{n}}\sqrt{\pi }

n por 1, ficamos com

\Gamma \left(1+\dfrac{1}{2}\right)=\Gamma \left( \dfrac{3}{2}\right) =\dfrac{1}{2^{1}}\sqrt{\pi }=\dfrac{1}{2}\sqrt{\pi },

que vemos ser verdadeiro, visto que da equação funcional da função gama

\Gamma \left( x+1\right) =x\Gamma \left( x\right)

se obtém, para x=\dfrac{1}{2}

\Gamma \left( 1+\dfrac{1}{2}\right) =\dfrac{1}{2}\Gamma \left( \dfrac{1}{2}\right) =\dfrac{1}{2}\sqrt{\pi }.

Admitimos agora que

\Gamma \left( n+\dfrac{1}{2}\right) =\dfrac{1\cdot 3\cdot 5\cdots \left( 2n-1\right) }{2^{n}}\sqrt{\pi }

e fazemos, na equação funcional, x=n+\dfrac{1}{2}. Como vem sucessivamente

\Gamma \left( n+1+\dfrac{1}{2}\right) =\left( n+\dfrac{1}{2}\right) \Gamma\left( n+\dfrac{1}{2}\right) =\left( n+\dfrac{1}{2}\right) \dfrac{1\cdot 3\cdot 5\cdots \left( 2n-1\right) }{2^{n}}\sqrt{\pi }

=\dfrac{2n+1}{2}\dfrac{1\cdot 3\cdot 5\cdots \left( 2n-1\right) }{2^{n}}\sqrt{\pi }=\dfrac{1\cdot 3\cdot 5\cdots \left( 2n-1\right) \left( 2n+1\right) }{2^{n+1}}\sqrt{\pi }

=\dfrac{1\cdot 3\cdot 5\cdots \left( 2n-1\right) \left[ 2\left( n+1\right) -1\right] }{2^{n+1}}\sqrt{\pi }

demonstra-se desta forma o passo de indução. \blacktriangleleft

pdf: ver caderno

Versão portuguesa da entrada “Congruences and Divisibility– A Purdue University Problem

Tradução do enunciado do Problema original [PROBLEM OF THE WEEK, Problem No. 12 (Spring 2009 Series)]:

« Para quantos inteiros positivos x\leq 10000 é que  2^{x}-x^{2} não é divisível por 7?

Justifique a sua resposta sem utilizar o computador. »

For how many positive integers x\leq 10,000 is 2^{x}-x^{2} not divisible by 7?

Justify your answer without the use of computers.“  

Eis a tradução da  minha resolução (aceite):

Se a\equiv b\quad \left( \text{mod }m\right) , então a^{n}\equiv b^{n}\quad\left( \text{mod }m\right) . Esta propriedade aplicada a 2^{n} dá em geral, para n=3k+s,1\leq s\leq 3,0\leq k

2^{n}\equiv 2^{s}\quad\left( \text{mod }7\right) ,\quad (1)

o que significa que os restos da divisão de  2^{n} por 7 formam uma sucessão periódica de comprimento 3 com início em n=1

\overset{\text{per\'{\i}odo}}{\overbrace{2,4,1}},\overset{3\text{ termos}}{\overbrace{2,4,1}},\ldots .

Quanto a n^{2}, dado que: a) se a\equiv b\quad \left( \text{mod }m\right) e c\equiv d\quad \left( \text{mod }m\right) , então a+c\equiv b+d\quad \left( \text{mod }m\right) e b) se a\equiv b\quad \left( \text{mod }m\right) , então a^{2}\equiv b^{2}\quad \left( \text{mod }m\right) , temos em geral, para n=7j+r,1\leq r\leq 7,0\leq j

n^{2}\equiv r^{2}\quad\left( \text{mod }7\right)\quad (2)

o que quer dizer que os restos da divisão de n^{2} por 7 formam uma sucessão  periódica  de comprimento 7 que começa em n=1

\overset{\text{per\'{\i}odo}}{\overbrace{1,4,2,2,4,1,0}},\overset{7\text{ termos}}{\overbrace{1,4,2,2,4,1,0}},\ldots . 

Se a\equiv b\quad \left( \text{mod }m\right) e c\equiv d\quad \left( \text{mod }m\right) , então a-c\equiv b-d\quad \left( \text{mod }m\right) . Seja u_{n}=2^{n}-n^{2}. Em consequência de (1) e (2) obtemos

u_{n}\equiv 2^{s}-r^{2}\quad \left( \text{mod }7\right) .\quad (3)

Os restos da divisão de  u_{n} por 7 formam outra sucessão periódica de comprimento 21=\text{mmc}(3,7) que se inicia também em n=1. Apresentamos abaixo quatro exemplos da determinação destes restos.

Para 1\leq n\leq 21 os seguintes 15 termos não são divisíveis por 7:

u_{1},u_{3},u_{7},u_{8},u_{9},u_{11},u_{12},u_{13},u_{14},u_{16},u_{17},u_{18},u_{19},u_{20},u_{21}.

Assim para 1\leq n\leq 9996=21\times \left\lfloor \dfrac{10000}{21}\right\rfloor , há 15\times\left\lfloor \dfrac{10000}{21}\right\rfloor =7140 termos que não são divisíveis por 7.

Dos restantes 4 termos u_{9997} e u_{9999}  não são divisíveis por 7, o que dá um total de 7140+2=7142 números u_{n}=2^{n}-n^{2} não divisíveis por 7.

Quatro exemplos do cálculo dos restos:

u_{9}=2^{9}-9^{2}

(9=3\times 2+3,s=3,9=7\times 1+2,r=2)

2^{9}\equiv 2^{3}\quad\left(\text{mod }7\right) \equiv 1\quad\left(\text{mod }7\right)

9^{2}\equiv 2^{2}\quad\left(\text{mod }7\right) \equiv 4\quad\left(\text{mod }7\right)

u_{9}\equiv 2^{3}-2^{2}\quad\left(\text{mod }7\right) \equiv -3\quad\left(\text{mod }7\right)

u_{10}=2^{10}-10^{2}

(10=3\times 3+1,s=1,10=7\times 1+3,r=3)

2^{10}\equiv 2^{1}\quad\left(\text{mod }7\right) \equiv 2\quad\left(\text{mod }7\right)

10^{2}\equiv 3^{2}\quad\left(\text{mod }7\right) \equiv 2\quad\left(\text{mod }7\right)

u_{10}\equiv 2^{1}-3^{2}\quad\left( \text{mod }7\right)\equiv 0\quad\left( \text{mod }7\right)

u_{9997}=2^{9997}-9997^{2}

(9997=3\times 3332+1,s=1,9997=7\times 1428+1,r=1)

2^{9997}\equiv 2^{1}\quad\left(\text{mod }7\right) \equiv 2\quad\left(\text{mod }7\right)

9997^{2}\equiv 1^{2}\quad\left(\text{mod }7\right) \equiv 1\quad\left(\text{mod }7\right)

u_{9997} \equiv 2^{9997}-9997^{2}\quad \left( \text{mod}7\right) \equiv 1\quad \left( \text{mod }7\right)

u_{9998}=2^{9998}-9998^{2}

(9998=3\times 3332+2,s=2,9998=7\times 1428+2,r=2)

2^{9998}\equiv 2^{2}\quad\left(\text{mod }7\right) \equiv 4\quad\left(\text{mod }7\right)

9998^{2}\equiv 2^{2}\quad\left(\text{mod }7\right) \equiv 4\quad\left(\text{mod }7\right)

u_{9998} \equiv 2^{9998}-9998^{2}\quad \left( \text{mod}7\right) \equiv 0\quad \left( \text{mod }7\right)

 

Prove que existe apenas um número natural  que verifica a relação

^{n\!}C_{n-2}=2^{n-2}-1

Sugestão: utilize o princípio de indução para provar que a relação não é satisfeita por nenhum natural superior a seis.

Esta ideia é devida a Vishal Lama (neste comentário em inglês).

Suscitado pela ideia do leitor António Ferrão, acrescentei o ponto 7 ao meu artigo a propósito de 123456. Por considerar que merece ser autonomizado, e para não alongar esse artigo, republico agora esse tema com adaptações de exposição. A parte principal deve-se a Jacques Glorieux.

Trata-se de saber como se pode decompor em factoriais o inteiro positivo n.

Uma possível decomposição é

n=f_k\times k!+f_{k-1}\times (k-1)!+\dots+f_2\times 2!+f_1\times 1!

que é única, se se considerarem os maiores factoriais possíveis; uso a notação

(f_k,f_{k-1},\dots,f_2,f_1)_{k!}

para me referir à sucessão que a cada n faz corresponder os k inteiros obtidos por este método. Esta sucessão está registada na The On-line Encyclopedia of Integer Sequences com a identificação A108731 (autor: Frank Adams-Watters). Começa por

1,1,0,1,1,2,0,\dots,

visto que 1=(1)_{1!}, 2=(1,0)_{2!}, 3=(1,1)_{2!}, 4=(2,0)_{2!},\dots.

O desenvolvimento de n na forma indicada — que aparece no livro de Donald Knuth, The Art of Computer Programming, Vol II, p. 192, como me chamou a atenção António Ferrão — é, como disse, único.
\bigskip
Apresento a seguir uma tradução da demonstração de Jacques Glorieux da seguinte
\bigskip

Proposição. Seja n be um inteiro positivo. A decomposição

n=f_{k}\times k!+f_{k-1}\times (k-1)!+\cdots +f_{2}\times 2!+f_{1}\times 1!\qquad (1)

é única se admitirmos que k!, (k-1)!,\dots têm os maiores valores possíveis, a começar por k! e continuando no sentido decrescente.

Demonstração. Baseia-se no teorema do qual depende o algoritmo da divisão, a saber:

Dados os inteiros a e b com b>0 existem dois únicos inteiros q e r, com 0\leq r<b tais que a=bq+r

Admitamos que k é o maior inteiro tal que k!\leq n.

Então se dividirmos n por k! e se designarmos o quociente por f_{k}, temos:

n=f_{k}\times k!+r_{k}, em que r_{k} designa o resto da divisão (0\leq r_{k}<k!)

Distinguimos dois casos:

1. r_{k}=0

Neste caso, n=f_{k}\times k!. O desenvolvimento de n indicado em (1) está certo e é único. Temos f_{k-1}=f_{k-2}=\dots =f_{1}=0

2.r_{k}>0

Neste caso, denotemos por m o menor inteiro tal que

(k-m-1)!\leq r_{k} (m=0,1,...,k-2)

Dividamos r_{k} por (k-m-1)! : temos

r_{k}=f_{k-m-1}\times (k-m-1)!+r_{k-m-1}

(com 0\leq r_{k-m-1}<(k-m-1)!).

Assim n=f_{k}\times k!+f_{k-m-1}\times (k-m-1)!+r_{k-m-1}

que se pode escrever

n=f_{k}\times k!+f_{k-1}\times (k-1)!+\dots

\dots +f_{k-m}\times (k-m)!+f_{k-m-1}\times (k-m-1)!+r_{k-m-1}

com f_{k-1}=\dots =f_{k-m}=0

Podemos prosseguir da mesma maneira até chegarmos a:

r_{2}=f_{1}\times 1!+r_{1} (tem-se r_1=0, uma vez que 0\leq r_{1}<1!).

Provámos desta forma que:

n=f_{k}\times k!+f_{k-1}\times (k-1)!+\cdots +f_{2}\times 2!+f_{1}\times 1!

Esta decomposição de n é única, visto que os coeficientes f_{k} são determinados também de forma única pelo algoritmo da divisão. \qquad\square

No meu artigo “linkado” acima poderá ver também o texto em inglês.

Entre n,k e f_k verificam-se as seguinte relações, uma prova das quais se deve também a Jacques Glorieux:

0\leq f_k\leq k\leq k!\leq n<(k+1)!

Se algum leitor interessado conseguir estabelecer relações mais fortes do que estas, seria certamente útil para definir melhor o comportamento da sucessão.

Adenda de 6-3-2009

Uma interpretação informal poderá ser:

Vejamos o exemplo  123456=3×8!+3×6!+2×5!+4×4! .  123456 pode ter outras decomposições: por exemplo 

   123456=123456×1!

 Mas se nos restringirmos ao máximo factorial menor ou igual a 123456, encontramos  8!=40320 (9!= 362880>123456).

Agora subtraímos 8! de 123456:

    123456-8!= 83136

Prosseguimos de forma semelhante:

    83136-8!= 42816
    42816-8!= 2496
    2496-6!= 1776
    1776-6!= 1056
    1056-6!= 336
    336-5!= 216
    216-5!= 96
    96-4!= 72
    72-4!= 48
    48-4!= 24
    24-4!= 0

 Donde 123456=3×8!+3×6!+2×5!+4×4!.

 O caso geral é uma generalização deste procedimento. 

 É similar a 123456 na base 10

    123456-100000=23456

    23456-10000=13456
    13456-10000=3456
    3456-1000=2456
    2456-1000=1456
    1456-1000=456 

    456-100=356
    356-100=256
    256-100=156
    156-100=56

    56-10=46
    46-10=36
    36-10=26
    26-10=16
    16-10=6

    6-1=5
    5-1=4
    4-1=3
    3-1=2
    2-1=1
    1-1=0

 Donde 123456=1×100000+2×10000+3×1000+4×100+5×10+6×1.

[7-3-2009: corrigi erro na primeira decomposição, em resposta ao 1º. comentário] 
   

123456 

A propósito do número de visitas deste blogue — o contador do WordPress passou hoje por 123456 — lembrei-me de  ver se descobria algo de interessante nele. Por exemplo:

1 - Quantos divisores admite?

Para respondermos a esta questão sem os indicar explicitamente, podemos recorrer a um teorema da aritmética racional (ou teoria dos números) cujo enunciado é:

O número de divisores do  inteiro n é a função aritmética d(n) cuja expressão analítica é 

d(n)=(e_1+1)(e_2+1)\cdots (e_k+1)

em que e_1,e_2,\dots , e_k são os expoentes da decomposição factorial em números primos de n

n=p_1^{e_1}p_2^{e_2}\cdots p_k^{e_k}

Então, como

123456=2^6\times 3\times 643

o número de divisores de 123456 é

d(123456)=(6+1)(1+1)(1+1)=28

2 - Como se escreve na base 6?

Como

123456=0+2\times 6+3\times 6^2+1\times 6^3+5\times 6^4+3\times 6^5+2\times 6^6

 tem-se

(2351320)_6=(123456)_{10}

Penso acrescentar mais exemplos, no futuro, aqui. São quase 23h30m e pretendo “postar” ainda hoje.

(Continuação, 23-2-2009)

3 - Quais são os maiores números de Fibonacci de que é soma?
 Ora, como
123456=121393+1597+377+55+21+13

=x_{26}+x_{17}+x_{14}+x_{10}+x_{8}+x_{7}

em que

x_{n}=\dfrac{\left( \dfrac{1+\sqrt{5}}{2}\right) ^{n}-\left( \dfrac{1-\sqrt{5}}{2}\right) ^{n}}{\sqrt{5}}

é o número de Fibonacci de ordem n, os números são precisamente x_{26},x_{17},x_{14},x_{10},x_{8},x_{7}.

4 - Em quantos modos diferentes se pode decompor num produto de factores primos ente si?

Atendendo a que há 3 potências (2^6,3,643)  na sua decomposição em primos, a resposta é 2^{3-1}=4, e que são:

123456=1\times 123456

123456=2^6\times (3\times 643)=64\times 1929

123456=(2^6\times 3)\times 643)=192\times 643

123456=(2^6\times 643)\times 3=41152\times 3

(Continuação, 24-2-2009)

5 - Qual é o resto da divisão inteira do seu cubo por 7?

Sem fazer a conta na calculadora, podemos utilizar propriedades das congruências, para chegar ao resultado.

Notação e definição: a\equiv b\; (\mod m) , que se lê a é congruente com b para o módulo m, significa que a-b é  um múltiplo de m (com a,b,c inteiros).

Ora, 64\times 1929=123456, 64\equiv 1\;\left( \mod 7\right) e 1929\equiv 4\;\left( \mod 7\right) . Pela propriedade da relação de congruência que diz que

 se a\equiv b\;\left( \mod m\right) e b\equiv d\;\left( \mod m\right) , então ac\equiv bd\;\left( \mod m\right)

 vem

123456= 64\times 1929\equiv 1\times 4\;\left( \mod 7\right) =4\;\left( \mod 7\right)

e por outra propriedade, a que diz que

se a\equiv b\;\left( \mod m\right) , então a^{n}\equiv b^{n}\;\left( \mod m\right)

 tem-se

123456^{3}\equiv 4^{3}\;\left( \mod 7\right) =64\;\left( \mod 7\right)

E como 64\equiv 1\;\left( \mod 7\right) , pela propriedade transitiva da relação de congruência

 se a\equiv b\;\left( \mod m\right) e b\equiv c\;\left( \mod m\right) , então a\equiv c\;\left( \mod m\right)

 conclui-se que

  123456^{3}\equiv 1\;\left( \mod 7\right)

 pelo que o resto é  1.

(Continuação, 25-2-2009)

6 - Qual é a soma dos seus divisores?

Sabendo-se a factorização em primos de um número n=p_{1}^{e_{1}}p_{2}^{e_{2}}\cdots p_{k}^{e_{k}}  a soma dos seus divisores é dada por

\dfrac{p_{1}^{^{e_{1}+1}}-1}{p_{i}-1}\times \dfrac{p_{2}^{e_{2}+1}-1}{p_{2}-1}\times \cdots \times \dfrac{p_{k}^{e_{k}+1}-1}{p_{k}-1}

No caso de 123456=2^{6}\times 3\times 643 será

\dfrac{2^{7}-1}{1}\times \dfrac{3^{2}-1}{2}\times \dfrac{643^{2}-1}{642}=327152

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Américo Tavares

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