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Reuno aqui, para comodidade de leitura, algumas entradas já publicadas sobre o princípio da indução matemática.
§1. Por este princípio, a demonstração da veracidade de uma determinada proposição matemática para todos os inteiros
, comporta dois passos:
(1) Verifica-se a sua validade para um dado valor inteiro (normalmente, 0 ou 1) da variável de indução
.
(2) Assume-se que é válida para o inteiro e demonstra-se que é também válida para
isto é, que
.
Vamos demonstrar de seguida o Teorema Binomial por este princípio.
Teorema: Para todo o valor de natural, tem-se
qualquer que seja o valor real de
Demonstração:
O teorema verifica-se para
e
logo
Admitimos agora que o teorema é válido para
isto é, que
e demonstremos que o é igualmente para
Como
vem
Manipulamos o segundo membro (lado direito) até obter De facto,
pela identidade de Pascal e porque
Mas, como
provámos, como pretendíamos, que e assim acabámos a demonstração.
A partir do desenvolvimento de deduz-se imediatamente o de
Corolário: Quaisquer que sejam os reais e
e o natural
é válida a fórmula
Demonstração: Admitamos que
.
Como
,
para tem-se
e
ou seja a fórmula ainda é válida .
§2. O Princípio de indução matemática é o seguinte axioma de Peano:
Se o conjunto A, contido em N, for tal que 1 pertence a A e n+1 pertence igualmente a A sempre que n seja elemento de A, então A = N. [N aqui é o conjunto dos naturais 1, 2, 3, ... ].
Uma propriedade P diz-se hereditária quando, sendo verdadeira para o inteiro n, é também verdadeira para o sucessor de n (n+1).
Assim, o Princípio de Indução equivale a afirmar que uma dada proposição, verdadeira para n=1 e hereditária, implica que seja verdadeira para todos os naturais 1, 2, 3, … .
Por isso, a aplicação deste método comporta as duas etapas (ou passos) conhecidos
-
Demonstração de que uma dada proposição é válida para n=1. (Caso Base).
-
Demonstração de que a proposição é hereditária. (Etapa de Indução).
Este princípio nada ou quase nada tem a ver com o método de indução próprio das ciências naturais, que se caracteriza por se estabelecer uma lei geral observando a repetição do mesmo fenómeno em inúmeros casos particulares.
§3. Nem todas as provas por indução têm o mesmo grau de dificuldade. Enquanto a do 1º. exemplo é extremamente simples e natural, a do 2º. obtive-a após tentativas, recorrendo a uma identidade algébrica auxiliar — a ser usada no passo de indução — cuja demonstração me pareceu mais simples do que a identidade inicialmente apresentada, que pode ser deduzida a partir da regra de Ruffini de divisão de um polinómio em , de grau
, por
.
Exemplo 1: prove por indução matemática
Para a igualdade verifica-se:
Admite-se que se verifica para
e prova-se que nesse caso também se verifica para , ou seja, devemos chegar a
Vejamos: se
então, somando a ambos os membros da igualdade e simplificando o segundo membro, deduzimos sucessivamente
Ora, como
provámos deste modo que a igualdade se verifica para qualquer inteiro .
Exemplo 2: se for um inteiro positivo, prove
Para , temos
.
Antes de aplicar a hipótese de indução, a ideia fundamental consiste em mostrar a validade da identidade auxiliar
em que
.
De facto
e
Mas
e
Subtraindo membro a membro, vem
pelo que fica provada a identidade da qual se tira
Assim, admitindo que
resulta que
como se queria mostrar.
§ 4. Exercício 1: prove que existe apenas um número natural que verifica a relação
Sugestão: utilize o princípio de indução para provar que a relação não é satisfeita por nenhum natural superior a seis.
Esta ideia é devida a Vishal Lama (neste comentário em inglês).
§ 5. Exercício 2: podemos demonstrar que
De facto substituindo em
por
, ficamos com
,
que vemos ser verdadeiro, visto que da equação funcional da função gama
se obtém, para
.
Admitimos agora que
e fazemos, na equação funcional, . Como vem sucessivamente
demonstra-se desta forma o passo de indução.
Actualização de 1.08.09: incluída figura
De
e
obtemos, por soma
e, por subtracção
Em vez dos métodos usuais da trigonometria é possível verificar uma identidade trigonométrica que seja uma fracção racional em e
utilizando estas substituições. Este é um dos métodos indicados neste post de Annoying Precision.
Exemplo: Demonstrar a seguinte identidade
Então fazendo as substituiçoes no primeiro membro, teremos
e, no segundo
Assim, para que a identidade seja verdadeira é condição suficiente que seja verdadeira a seguinte
ou, visto que e
, as identidades sucessivas
Como esta identidade é verdadeira, conclui-se que as anteriores, incluindo a do exemplo são igualmente verdadeiras.
Exercício: Verifique a seguinte identidade trigonométrica
usada, na forma da desigualdade
,
por De la Vallée Poussin num passo da demonstração do teorema dos números primos
Seguindo o mesmo procedimento
,
ou
,
e
tem-se agora
ou, após simplificação
Adenda de 2.08.09:
Problema: utilize este método para demonstrar que
isto é
Por este processo também é fácil verificar se certas igualdades trigonométricas são identidades ou equações. Por exemplo, veja se a igualdade seguinte é ou não uma identidade:
Muitas vezes uma série é telescópica, mas nem sempre é fácil reconhecer esse facto.
Exercício: Sejam e
respectivamente
e
.
Mostre que .
Resolução: a única dificuldade é mostrar que a série é telescópica. Vamos aproveitar a identidade trigonométrica provada neste problema:
.
Dela obtém-se
,
fazendo a substituição ( equivalente a
). Assim, temos
donde
.
Pondo e atendendo à relação algébrica
chegamos efectivamente à série telescópica
Repetindo, muitas vezes uma série é telescópica, mas nem sempre é fácil reconhecer esse facto. Com este exemplo pretendi ilustrar uma situação de dificuldade intermédia, avaliação que é claramente subjectiva porque depende muito de resultados anteriores que se conhecem ou não: neste caso, uma identidade trigonométrica.
Neste blogue já descrevi e utilizei o método de indução matemática em certas demonstrações. Nesta entrada apresento dois novos exemplos, ilustrativos de que nem todas as provas por indução têm o mesmo grau de dificuldade. Enquanto a do 1º. é extremamente simples e natural, a do 2º. obtive-a após tentativas, recorrendo a uma identidade algébrica auxiliar — a ser usada no passo de indução — cuja demonstração me pareceu mais simples do que a identidade inicialmente apresentada, que pode ser deduzida a partir da regra de Ruffini de divisão de um polinómio em , de grau
, por
.
Exemplo 1: prove por indução matemática
Para a igualdade verifica-se:
Admite-se que se verifica para
e prova-se que nesse caso também se verifica para , ou seja, devemos chegar a
Vejamos: se
então, somando a ambos os membros da igualdade e simplificando o segundo membro, deduzimos sucessivamente
Ora, como
provámos deste modo que a igualdade se verifica para qualquer inteiro .
Exemplo 2: se for um inteiro positivo, prove
Para , temos
.
Antes de aplicar a hipótese de indução, a ideia fundamental consiste em mostrar a validade da identidade auxiliar
em que
.
De facto
e
Mas
e
Subtraindo membro a membro, vem
pelo que fica provada a identidade da qual se tira
Assim, admitindo que
resulta que
como se queria mostrar.
Veja aqui um exercício sobre este método.
Mostre que de todos os possíveis triângulos inscritos na circunferência os de maior área são os equiláteros. Se um dos vértices tiver coordenadas
, quais são as dos outros dois?
Generalize para para um polígono de lados.



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