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Como exercício simples do método de  indução podemos demonstrar que

\Gamma \left( n+\dfrac{1}{2}\right) =\dfrac{1\cdot 3\cdot 5\cdots \left( 2n-1\right) }{2^{n}}\sqrt{\pi }\qquad n=1,2,3,\ldots .

De facto substituindo em

 \Gamma \left( n+\dfrac{1}{2}\right) =\dfrac{1\cdot 3\cdot 5\cdots \left( 2n-1\right) }{2^{n}}\sqrt{\pi }

 n por 1, ficamos com

\Gamma \left(1+\dfrac{1}{2}\right)=\Gamma \left( \dfrac{3}{2}\right) =\dfrac{1}{2^{1}}\sqrt{\pi }=\dfrac{1}{2}\sqrt{\pi },

que vemos ser verdadeiro, visto que da equação funcional da função gama

\Gamma \left( x+1\right) =x\Gamma \left( x\right)

se obtém, para x=\dfrac{1}{2}

\Gamma \left( 1+\dfrac{1}{2}\right) =\dfrac{1}{2}\Gamma \left( \dfrac{1}{2}\right) =\dfrac{1}{2}\sqrt{\pi }.

 Admitimos agora que

\Gamma \left( n+\dfrac{1}{2}\right) =\dfrac{1\cdot 3\cdot 5\cdots \left( 2n-1\right) }{2^{n}}\sqrt{\pi }

e  fazemos, na equação funcional, x=n+\dfrac{1}{2}. Como vem sucessivamente

\Gamma \left( n+1+\dfrac{1}{2}\right) =\left( n+\dfrac{1}{2}\right) \Gamma\left( n+\dfrac{1}{2}\right) =\left( n+\dfrac{1}{2}\right) \dfrac{1\cdot 3\cdot 5\cdots \left( 2n-1\right) }{2^{n}}\sqrt{\pi }

=\dfrac{2n+1}{2}\dfrac{1\cdot 3\cdot 5\cdots \left( 2n-1\right) }{2^{n}}\sqrt{\pi }=\dfrac{1\cdot 3\cdot 5\cdots \left( 2n-1\right) \left( 2n+1\right) }{2^{n+1}}\sqrt{\pi }

=\dfrac{1\cdot 3\cdot 5\cdots \left( 2n-1\right) \left[ 2\left( n+1\right) -1\right] }{2^{n+1}}\sqrt{\pi }

demonstra-se desta forma o passo de indução. \blacktriangleleft

Suscitado pela ideia do leitor António Ferrão, acrescentei o ponto 7 ao meu artigo a propósito de 123456. Por considerar que merece ser autonomizado, e para não alongar esse artigo, republico agora esse tema com adaptações de exposição. A parte principal deve-se a Jacques Glorieux.

Trata-se de saber como se pode decompor em factoriais o inteiro positivo n.

Uma possível decomposição é

n=f_k\times k!+f_{k-1}\times (k-1)!+\dots+f_2\times 2!+f_1\times 1!

que é única, se se considerarem os maiores factoriais possíveis; uso a notação

(f_k,f_{k-1},\dots,f_2,f_1)_{k!}

para me referir à sucessão que a cada n faz corresponder os k inteiros obtidos por este método. Esta sucessão está registada na The On-line Encyclopedia of Integer Sequences com a identificação A108731 (autor: Frank Adams-Watters). Começa por

1,1,0,1,1,2,0,\dots,

visto que 1=(1)_{1!}, 2=(1,0)_{2!}, 3=(1,1)_{2!}, 4=(2,0)_{2!},\dots.

O desenvolvimento de n na forma indicada — que aparece no livro de Donald Knuth, The Art of Computer Programming, Vol II, p. 192, como me chamou a atenção António Ferrão — é, como disse, único.
\bigskip
Apresento a seguir uma tradução da demonstração de Jacques Glorieux da seguinte
\bigskip

Proposição. Seja n be um inteiro positivo. A decomposição

n=f_{k}\times k!+f_{k-1}\times (k-1)!+\cdots +f_{2}\times 2!+f_{1}\times 1!\qquad (1)

é única se admitirmos que k!, (k-1)!,\dots têm os maiores valores possíveis, a começar por k! e continuando no sentido decrescente.

Demonstração. Baseia-se no teorema do qual depende o algoritmo da divisão, a saber:

Dados os inteiros a e b com b>0 existem dois únicos inteiros q e r, com 0\leq r<b tais que a=bq+r

Admitamos que k é o maior inteiro tal que k!\leq n.

Então se dividirmos n por k! e se designarmos o quociente por f_{k}, temos:

n=f_{k}\times k!+r_{k}, em que r_{k} designa o resto da divisão (0\leq r_{k}<k!)

Distinguimos dois casos:

1. r_{k}=0

Neste caso, n=f_{k}\times k!. O desenvolvimento de n indicado em (1) está certo e é único. Temos f_{k-1}=f_{k-2}=\dots =f_{1}=0

2.r_{k}>0

Neste caso, denotemos por m o menor inteiro tal que

(k-m-1)!\leq r_{k} (m=0,1,...,k-2)

Dividamos r_{k} por (k-m-1)! : temos

r_{k}=f_{k-m-1}\times (k-m-1)!+r_{k-m-1}

(com 0\leq r_{k-m-1}<(k-m-1)!).

Assim n=f_{k}\times k!+f_{k-m-1}\times (k-m-1)!+r_{k-m-1}

que se pode escrever

n=f_{k}\times k!+f_{k-1}\times (k-1)!+\dots

\dots +f_{k-m}\times (k-m)!+f_{k-m-1}\times (k-m-1)!+r_{k-m-1}

com f_{k-1}=\dots =f_{k-m}=0

Podemos prosseguir da mesma maneira até chegarmos a:

r_{2}=f_{1}\times 1!+r_{1} (tem-se r_1=0, uma vez que 0\leq r_{1}<1!).

Provámos desta forma que:

n=f_{k}\times k!+f_{k-1}\times (k-1)!+\cdots +f_{2}\times 2!+f_{1}\times 1!

Esta decomposição de n é única, visto que os coeficientes f_{k} são determinados também de forma única pelo algoritmo da divisão. \qquad\square

No meu artigo “linkado” acima poderá ver também o texto em inglês.

Entre n,k e f_k verificam-se as seguinte relações, uma prova das quais se deve também a Jacques Glorieux:

0\leq f_k\leq k\leq k!\leq n<(k+1)!

Se algum leitor interessado conseguir estabelecer relações mais fortes do que estas, seria certamente útil para definir melhor o comportamento da sucessão.

Adenda de 6-3-2009

Uma interpretação informal poderá ser:

Vejamos o exemplo  123456=3×8!+3×6!+2×5!+4×4! .  123456 pode ter outras decomposições: por exemplo 

   123456=123456×1!

 Mas se nos restringirmos ao máximo factorial menor ou igual a 123456, encontramos  8!=40320 (9!= 362880>123456).

Agora subtraímos 8! de 123456:

    123456-8!= 83136

Prosseguimos de forma semelhante:

    83136-8!= 42816
    42816-8!= 2496
    2496-6!= 1776
    1776-6!= 1056
    1056-6!= 336
    336-5!= 216
    216-5!= 96
    96-4!= 72
    72-4!= 48
    48-4!= 24
    24-4!= 0

 Donde 123456=3×8!+3×6!+2×5!+4×4!.

 O caso geral é uma generalização deste procedimento. 

 É similar a 123456 na base 10

    123456-100000=23456

    23456-10000=13456
    13456-10000=3456
    3456-1000=2456
    2456-1000=1456
    1456-1000=456 

    456-100=356
    356-100=256
    256-100=156
    156-100=56

    56-10=46
    46-10=36
    36-10=26
    26-10=16
    16-10=6

    6-1=5
    5-1=4
    4-1=3
    3-1=2
    2-1=1
    1-1=0

 Donde 123456=1×100000+2×10000+3×1000+4×100+5×10+6×1.

[7-3-2009: corrigi erro na primeira decomposição, em resposta ao 1º. comentário] 
   

pdf: ver caderno

Gráfico de Γ(x) no intervalo ]-5,5]

gamanosreais

A função especial beta é definida para as variáveis reais x,y pelo integral

B(x,y)=\displaystyle\int_{0}^{1}t^{x-1}(1-t)^{y-1}\;dt (1)

que é impróprio mas convergente, no caso de x>0 e y>0 e   pelo menos uma das variáveis x<1 ou y<1.

A função B(x,y) (para x>0 e y>0) relaciona-se com a função especial gama

\Gamma (x)=\displaystyle\int_{0}^{\infty}t^{x-1}e^{-t}\;dt (2)

através da conhecida identidade

B(x,y)=\dfrac{\Gamma (x)\Gamma (y)}{\Gamma (x+y)} (3)

que não vou demonstrar.

O que me proponho demonstrar é a chamada fórmula da reflexão ou dos complementos da função gama no domínio real, seguindo o método indicado nos exercícios não resolvidos 10 e 11 da página 683 do livro de Angus E. Taylor, Advanced Calculus, Blaisdell Publishing Company, 1955.

Proposição: Se a for real, é válida a identidade seguinte

\dfrac{\pi}{\sin a\pi}=\pi \csc a\pi=B(a,1-a)=\Gamma(a)\Gamma(1-a) (4)

Notação:  \csc a\pi=1/\sin a\pi é  a cosecante de a\pi.

Demonstração: Se 0<a<1, tem-se

\displaystyle\int_{1}^{\infty}\dfrac{y^{a-1}}{1+y}\;dy=\displaystyle\int_{0}^{1}\dfrac{x^{-a}}{1+x}\;dx

como resulta da mudança de variável y=1/x. O integral

\displaystyle\int_{0}^{1}\dfrac{x^{-a}}{1+x}\;dx

é convergente se a<1, porque nesta condição  \displaystyle\int_{0}^{1}\dfrac{dx}{x^{a}} é convergente e \dfrac{x^{-a}}{x+1}\cdot x^a tende para 1, quando x tende para 0^+, e,  por outro lado, o integral

\displaystyle\int_{1}^{\infty}\dfrac{y^{a-1}}{1+y}\;dy

também nesse caso é convergente, porque \displaystyle\int_{1}^{\infty}\dfrac{dy}{y^{2-a}} converge e \dfrac{y^{a-1}\cdot y^{2-a}}{1+y} tende para 1, quando y tende para \infty.

Outra representação integral da função beta é:

B(x,y)=\displaystyle\int_{0}^{\infty}\dfrac{u^{x-1}}{(1+u)^{x+y}}\;du (5)

que se obtém de (1) através das substituição

t=\dfrac{u}{1+u}.

De (5) resulta

B(a,1-a)=\displaystyle\int_{0}^{\infty}\dfrac{u^{a-1}}{1+u}\;du=\displaystyle\int_{0}^{1}\dfrac{u^{a-1}}{1+u}\;du+\displaystyle\int_{1}^{\infty}\dfrac{u^{a-1}}{1+u}\;du

=\displaystyle\int_{0}^{1}\dfrac{u^{a-1}}{1+u}\;du+\displaystyle\int_{0}^{1}\dfrac{u^{-a}}{1+u}\;du=\displaystyle\int_{0}^{1}\dfrac{u^{a-1}+u^{-a}}{1+u}\;du

Usando agora o desenvolvimento em série  de

\dfrac{1}{1+u}=\displaystyle\sum_{n=0}^{\infty}(-1)^{n}u^n,

obtém-se

\dfrac{u^{a-1}}{1+u}=\displaystyle\sum_{n=0}^{\infty}(-1)^{n}u^{a-1+n}

e

\dfrac{u^{-a}}{1+u}=\displaystyle\sum_{n=0}^{\infty}(-1)^{n}u^{-a+n},

e integrando termo a termo a função integranda \dfrac{u^{a-1}+u^{-a}}{1+u}, como

(-1)^{n}\displaystyle\int_{0}^{1}u^{a-1+n}\;du=\dfrac{(-1)^{n}}{a+n}

e

(-1)^{n}\displaystyle\int_{0}^{1}u^{-a+n}\;du=\dfrac{(-1)^{n}}{-a+n+1},

depois de agrupar os termos pares da série

\displaystyle\sum_{n=0}^{\infty}\dfrac{(-1)^{n}}{a+n}

com os ímpares da série

\displaystyle\sum_{n=0}^{\infty}\dfrac{(-1)^{n}}{-a+n+1}

obtém-se no fim a série

\dfrac{1}{a}+2a\displaystyle\sum_{n=0}^{\infty}\dfrac{(-1)^{n+1}}{n^2-a^2}.

Em consequência

B(a,1-a)=\Gamma (a)\Gamma (1-a)=\dfrac{1}{a}+2a\displaystyle\sum_{n=0}^{\infty}\dfrac{(-1)^{n+1}}{n^2-a^2}

 Ora, a série de Fourier da função f(x)=\pi\cos ax, em que -\pi\le x\le\pi, é

\pi\cos ax=2a\sin a\pi\left( \dfrac{1}{2a^2}+\displaystyle\sum_{n=1}^{\infty}\dfrac{(-1)^{n+1}\cos nx}{n^2-a^2}\right)

que assume o desenvolvimento particular para x=0:

\pi=\sin a\pi\left( \dfrac{1}{a}+2a\displaystyle\sum_{n=1}^{\infty}\dfrac{(-1)^{n+1}}{n^2-a^2}\right)

donde, efectivamente

\dfrac{\pi}{\sin a\pi}=\pi \csc a\pi=B(a,1-a)=\Gamma(a)\Gamma(1-a)\qquad\blacksquare

Esta mesma identidade também se verifica para a complexo.

ADENDA de 23-1-2009: para a=1/2 obtém-se

\dfrac{\pi}{\sin \pi/2}=\Gamma(1/2)\Gamma(1/2)

donde

\Gamma\left( \dfrac{1}{2}\right) =\sqrt{\pi} (6)

Actualização de 15-2-2009: acrescentado gráfico da função gama.
 

pdf: ver caderno

Provar que a soma de 2 elevado a 33 com 3 elevado a 33  é  um número composto.

[do Vestibular da UFPE, 2008]

 

\blacktriangleright Para n=1+4k (com k=1,2,\ldots ) as potências 2^{n} e 3^{n} terminam (*), respectivamente, em 2 e 3; a sua soma 2^{n}+3^{n} termina por isso em 5. Ora

2^{33}+3^{33}=2^{1+4\times 8}+3^{1+4\times 8}

e, consequentemente, 2^{33}+3^{33} é divisível por 5, logo não é  primo. \blacktriangleleft

\bigskip

(*) Por exemplo: \mathbf{2}^{1}\mathbf{=2}, 2^{2}=\allowbreak 4, 2^{3}=\allowbreak 8, 2^{4}=\allowbreak 16, \mathbf{2}^{5}\mathbf{=\allowbreak 32}, 2^{6}=\allowbreak 64, 2^{7}=\allowbreak 128, 2^{8}=\allowbreak 256, \mathbf{2}^{9}\mathbf{=\allowbreak 512},\dots

\bigskip

\mathbf{3}^{1}\mathbf{=\allowbreak 3}, 3^{2}=\allowbreak 9, 3^{3}=\allowbreak 27, 3^{4}=\allowbreak 81, \mathbf{3}^{5}\mathbf{=\allowbreak 243}, 3^{6}=\allowbreak 729, 3^{7}=\allowbreak 2187, 3^{8}=\allowbreak 6561, \mathbf{3}^{9}\mathbf{=\allowbreak 19\,683},\dots

Adenda de 24-4-2009:

Método alternativo: de uma forma mais rigorosa e aproveitando uma ideia desenvolvida neste artigo pode justificar-se este resultado da seguinte maneira. 

Se a\equiv b\quad \left( \text{mod }m\right) , então a^{n}\equiv b^{n}\quad\left( \text{mod }m\right) . Esta propriedade aplicada a 2^{n} dá em geral, para n=4k+s,1\leq s\leq 3,0\leq k

2^{n}\equiv 2^{s}\quad\left( \text{mod }5\right) ,\quad (1)

o que significa que os restos da divisão de  2^{n} por 5 formam uma sucessão periódica de comprimento 4 com início em n=1

\overset{\text{per\'{\i}odo}}{\overbrace{2,4,3,1}},\overset{4\text{ termos}}{\overbrace{2,4,3,1}},\ldots .

Aplicada a 3^{n} (n=4k+s,1\leq s\leq 3,0\leq k) dá

3^{n}\equiv 3^{s}\quad\left( \text{mod }5\right) ,\quad (2)

o que significa que os restos da divisão de  3^{n} por 5 formam uma sucessão periódica de comprimento 4 com início em n=1

\overset{\text{per\'{\i}odo}}{\overbrace{3,4,2,1}},\overset{4\text{ termos}}{\overbrace{3,4,2,1}},\ldots .

Se a\equiv b\quad \left( \text{mod }m\right) e c\equiv d\quad \left( \text{mod }m\right) , então a-c\equiv b-d\quad \left( \text{mod }m\right) . Em consequência de (1) e (2) obtemos

 2^n+3^n\equiv 2^{s}+3^{s}\quad \left( \text{mod }5\right) .\quad (3)

Os restos da divisão de  2^n+3^n por 5 formam outra sucessão periódica de comprimento 4 que se inicia também em n=1

\overset{\text{per\'{\i}odo}}{\overbrace{0,3,0,2}},\overset{4\text{ termos}}{\overbrace{0,3,0,2}},\ldots . 

Logo para n ímpar, 2^n+3^n\equiv 2^{s}+2^{s} é divisível por 5, pelo que  2^{33}+3^{33} não é primo.

Ou então calcula-se simplesmente 33=4\times 8+1,s=1 e

2^{33}\equiv 2^{1}\quad\left( \text{mod }5\right)

3^{33}\equiv 3^{1}\quad\left( \text{mod }5\right)

donde

 2^{33}+3^{33}\equiv 2^{1}+3^{1}\quad \left( \text{mod }5\right) \equiv 0\quad \left( \text{mod }5\right)

visto que

5 \equiv 0\quad \left( \text{mod }5\right) .

Adenda de 4-6-2009:

Justificação de Vishal Lama: Could we just say that a^n + b^n is divisible by a + b for all odd n, and hence, 2^{33} + 3^{33} is divisible by 5?
    Indeed, b \equiv -a \quad (\mod a+b), and so, b^n \equiv -a^n \quad (\mod a+b) for odd n. Therefore, a^n + b^n \equiv 0 \quad (\mod a+b).

 

pdf: ver caderno

A desigualdade de Cauchy-Schwarz, já demonstrada anteriormente, é também uma consequência directa da identidade de Lagrange; neste sentido esta identidade constitui uma generalização dessa desigualdade, que
relembro ser

\left( \displaystyle\sum_{k=1}^{n}a_{k}b_{k}\right) ^{2}\leq \left( \displaystyle\sum_{k=1}^{n}a_{k}^2\right) \left( \displaystyle\sum_{k=1}^{n}b_{k}^2\right)

\bigskip

Proposição: Identidade de Lagrange. Para os reais a_{k} e b_{k} (com 1\leq k\leq n) verifica-se 

\left( \displaystyle\sum_{k=1}^{n}a_{k}b_{k}\right) ^{2}=\left( \displaystyle\sum_{k=1}^{n}a_{k}^{2}\right) \left( \displaystyle\sum_{k=1}^{n}b_{k}^{2}\right) -\displaystyle\sum_{i=1}^{n-1}\displaystyle\sum_{j=i+1}^{n}\left( a_{i}b_{j}-a_{j}b_{i}\right) ^{2}

Demonstração: O produto de duas somas com n termos cada é uma soma com n^{2} termos:

\left( \displaystyle\sum_{i=1}^{n}x_{i}\right) \left( \displaystyle\sum_{j=1}^{n}y_{j}\right) =\displaystyle\sum_{i=1}^{n}\displaystyle\sum_{j=1}^{n}x_{i}y_{j}

Os índices i e j de cada termo genérico x_{i}y_{j} podem ser iguais (i=j) ou o primeiro menor do que o segundo (i<j) ou maior (j<i). Separando estes três grupos de parcelas, vem

\displaystyle\sum_{i=1}^{n}\displaystyle\sum_{j=1}^{n}x_{i}y_{j}=\displaystyle\sum_{i=1}^{n}x_{i}y_{i}+\displaystyle\sum_{1\leq i<j\leq n}x_{i}y_{j}+\displaystyle\sum_{1\leq j<i\leq n}x_{i}y_{j}

=\displaystyle\sum_{i=1}^{n}x_{i}y_{i}+\displaystyle\sum_{i=1}^{n-1}\displaystyle\sum_{j=i+1}^{n}x_{i}y_{j}+\displaystyle\sum_{j=1}^{n-1}\displaystyle\sum_{i=j+1}^{n}x_{i}y_{j}

donde

\left( \displaystyle\sum_{i=1}^{n}x_{i}\right) \left( \displaystyle\sum_{j=1}^{n}y_{j}\right) =\displaystyle\sum_{i=1}^{n}x_{i}y_{i}+\displaystyle\sum_{i=1}^{n-1}\displaystyle\sum_{j=i+1}^{n}x_{i}y_{i}+\displaystyle\sum_{j=1}^{n-1}\displaystyle\sum_{i=j+1}^{n}x_{i}y_{i}

Particularizando, para x_{i}=a_{i}^{2} e y_{j}=b_{j}^{2} obtém-se

\left( \displaystyle\sum_{i=1}^{n}a_{i}^{2}\right) \left( \displaystyle\sum_{j=1}^{n}b_{j}^{2}\right) =\displaystyle\sum_{i=1}^{n}a_{i}^{2}b_{i}^{2}+\displaystyle\sum_{i=1}^{n-1}\displaystyle\sum_{j=i+1}^{n}a_{i}^{2}b_{j}^{2}+\displaystyle\sum_{j=1}^{n-1}\displaystyle\sum_{i=j+1}^{n}a_{i}^{2}b_{j}^{2}

e para x_{i}=y_{i}=a_{i}b_{i}

\left( \displaystyle\sum_{i=1}^{n}a_{i}b_{i}\right) ^{2}=\left( \displaystyle\sum_{i=1}^{n}a_{i}b_{i}\right) \left( \displaystyle\sum_{i=1}^{n}a_{i}b_{i}\right)

 =\displaystyle\sum_{i=1}^{n}a_{i}^{2}b_{i}^{2}+\displaystyle\sum_{i=1}^{n-1}\displaystyle\sum_{j=i+1}^{n}a_{i}b_{i}a_{j}b_{j}+\displaystyle\sum_{j=1}^{n-1}\displaystyle\sum_{i=j+1}^{n}a_{i}b_{i}a_{j}b_{j}

Ora

\displaystyle\sum_{i=1}^{n-1}\displaystyle\sum_{j=i+1}^{n}a_{i}b_{i}a_{j}b_{j}=\displaystyle\sum_{j=1}^{n-1}\displaystyle\sum_{i=j+1}^{n}a_{i}b_{i}a_{j}b_{j}

pelo que

\left( \displaystyle\sum_{i=1}^{n}a_{i}b_{i}\right) ^{2}=\displaystyle\sum_{i=1}^{n}a_{i}^{2}b_{i}^{2}+2\displaystyle\sum_{i=1}^{n-1}\displaystyle\sum_{j=i+1}^{n}a_{i}b_{i}a_{j}b_{j}

Por outro lado

2a_{i}b_{i}a_{j}b_{j}=a_{i}^{2}b_{j}^{2}+a_{j}^{2}b_{i}^{2}-\left( a_{i}b_{j}-a_{j}b_{i}\right) ^{2}

donde

\left( \displaystyle\sum_{i=1}^{n}a_{i}b_{i}\right) ^{2}=\displaystyle\sum_{i=1}^{n}a_{i}^{2}b_{i}^{2}+\displaystyle\sum_{i=1}^{n-1}\displaystyle\sum_{j=i+1}^{n}a_{i}^{2}b_{j}^{2}+

 \displaystyle\sum_{i=1}^{n-1}\displaystyle\sum_{j=i+1}^{n}a_{j}^{2}b_{i}^{2}-\displaystyle\sum_{i=1}^{n-1}\displaystyle\sum_{j=i+1}^{n}\left( a_{i}b_{j}-a_{j}b_{i}\right) ^{2}

=\left( \displaystyle\sum_{i=1}^{n}a_{i}^{2}\right) \left( \displaystyle\sum_{j=1}^{n}b_{j}^{2}\right) -\displaystyle\sum_{i=1}^{n-1}\sum_{j=i+1}^{n}\left( a_{i}b_{j}-a_{j}b_{i}\right) ^{2}

visto que, por troca dos índices i e j, se tem

\displaystyle\sum_{i=1}^{n-1}\displaystyle\sum_{j=i+1}^{n}a_{j}^{2}b_{i}^{2}=\displaystyle\sum_{j=1}^{n-1}\displaystyle\sum_{i=j+1}^{n}a_{i}^{2}b_{j}^{2}

provando-se assim a identidade indicada acima \qquad\square

Correcção de 1-12-2008: na fórmula da desigualdade de Cauchy-Schwarz, bem como no pdf.

Américo Tavares

1951, eng. electrotécnico, IST, 1974, reformado;
membro da Ordem dos Engenheiros e sócio da Sociedade Portuguesa de Matemática.

Bem-vindo(a)!

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